Sobreviventes - Os Filhos da Guerra de Canudos

Em 2012 são lembrados os 115 anos dos trágicos acontecimentos em Canudos e da luta de Antônio Conselheiro e seus milhares de seguidores pela conquista da terra e por um lugar de igualdade, longe da tirania dos coronéis do sertão.

O documentário Sobreviventes - Os Filhos da Guerra de Canudos, produzido em 2004, apresenta depoimentos de filhos de conselheiristas que sobreviveram ao conflito e à dureza da vida no sertão brasileiro. Uma homenagem aos homens, mulheres, velhos e crianças mortos num dos mais sangrentos e injustos fatos da história do Brasil.

Sobreviventes - Guerra de Canudos 1

O documentário é inspirado no trabalho do fotógrafo Evandro Teixeira sobre Canudos, que resultou no livro Canudos 100 Anos e na exposição Evandro Teixeira - Canudos, que reuniu 50 das 100 fotos incluídas no livros. Nascido na Bahia, o fotógrafo passou toda a infância ouvindo histórias sobre a Guerra de Canudos, e o fascínio aumentou quando leu a obra-prima de Euclides da Cunha, Os Sertões. O projeto levou quatro anos para ser concluído. Evandro resgatou sobreviventes e herdeiros da comunidade criada por Antônio Conselheiro, líder messiânico que comandou milhares de seguidores na Guerra de Canudos. A exposição chegou a ser apresentada em Paris, no ano do Brasil na França, além de ter rodado todo o Brasil e outros países.

"Eu estava fazendo o documentário Evandro Teixeira - Instantâneos da Realidade e tomei contato com a história da guerra - fiquei simplesmente apaixonado e comecei a ler tudo sobre Canudos", conta o diretor Paulo Fontenelle. Em viagem a Canudos, Paulo gravou mais de vinte horas de depoimentos com os personagens do filme – contadores de histórias com idades entre 88 e 110 anos. O principal objetivo do documentário é apresentar uma visão mais íntima e pessoal da guerra e impedir que sua rica história oral se perca com o falecimento das últimas testemunhas. "Nós tínhamos uma certa urgência em fazer o filme porque nossos entrevistados eram todos muito idosos e podiam falecer a qualquer momento, inclusive alguns morreram logo depois das filmagens. Então partimos com uma equipe pequena para Canudos e rodamos o filme inteiro em menos de dez dias.", diz Paulo.

A primeira fase do filme foi feita sem patrocínio. A produtora Canal Imaginário (da qual Fontenelle é sócio) bancou os cerca de R$30 mil gastos na produção. Para a sua finalização em 35 mm o filme contou com o patrocínio do Ministério da Cultura e da Petrobras através do Edital de Finalização de 2003.

Da concepção da ideia até o filme pronto passaram-se cerca de dois anos e meio. O filme foi rodado nas cidades de Canudos Velho (local da guerra), Canudos Novo (para onde a velha cidade foi transferida), Bendegó, Rosário e Euclides da Cunha.
 
Sobreviventes - Guerra de Canudos 2

Para ilustrar o acontecimento, além de imagens do Nordeste e documentos históricos, Sobreviventes utiliza fotos de Flávio de Barros (fotógrafo contratado pelo exército para cobrir a guerra) e material de Evandro Teixeira de seu livro Canudos 100 Anos, mas o diretor explica que o filme não pretende ser uma "aula" sobre a guerra.

"Nosso objetivo não é que Sobreviventes seja visto como um documento histórico sobre a guerra, tanto que temos a presença de apenas um historiador que serve mais propriamente como um narrador, ligando os depoimentos e situando os espectadores. Nós queremos mostrar um retrato pessoal a partir dos olhos de quem viveu no lugar." Sobre o fato do filme trazer legendas em português, o diretor explica: "Nossos personagens, além de serem idosos, falam quase um dialeto. Quando mostramos o filme da primeira vez, muitas pessoas comentaram que tiveram dificuldade em entender o que eles diziam; então optamos por legendar alguns deles."

O filme conta com a participação de Antonio de Isabel, com 110 anos quando foi entrevistado, já falecido, e o único ainda vivo à época das filmagens que conheceu Antonio Conselheiro.

A história

1893 – Antônio Conselheiro inicia a sua peregrinação pelo sertão da Bahia. Foram quase 30 anos de andanças e, por onde passou, Conselheiro construiu e restaurou igrejas, cemitérios e açudes. Finalmente, conduziu seus seguidores rumo ao norte da fundaria de Canudos, à beira do Rio Vaza-Barris.

1896 – Canudos cresceu vertiginosamente se tornando a segunda maior cidade da Bahia. Conselheiro administrava a cidade e seus 25 mil habitantes através de suas próprias leis, pregava o coletivo, a divisão do trabalho, da comida e da terra, e prosperava. A existência de Canudos não agradava ao poder da República, pois Conselheiro era a favor do império e não pagava impostos. Assim, foi organizada uma das maiores ofensivas militares da nossa história: 10 mil soldados, distribuídos em cinco expedições.

1897 – Morre Antônio Conselheiro, Canudos é derrotada.

O documentário conta a história dos descendentes das pessoas que conseguiram sobreviver ou escapar de alguma forma do massacre de Canudos.

Através de depoimentos de idosos como Antonio de Isabel (até então, o único homem vivo que conheceu Antonio Conselheiro), João de Régis (cujos pais escaparam nos últimos dias da guerra), Zefa de Mamede (sua mãe saiu de Canudos no final da guerra para procurar comida e quando retornou a cidade já estava destruída), entre outros, o filme pretende resgatar essa história que permaneceu esquecida por muito tempo.

Festivais e prêmios

  • Prêmio OCIC de Melhor Longa-metragem na 10ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico
  • Exibido como Hour-councours no Festival É Tudo Verdade 2005
  • Mostra Competitiva de Documentários no Festival de Cinema de Gramado 2004 (filme de abertura)
  • Festival Internacional de Cinema de Brasília
  • Festival de Cinema Tambores do Maranhão
  • Festival de Cinema de Cabo-Frio

"Um documentário sobre os trabalhos da memória. Um tempo de velocidade e fugacidade, o espectador compartilha a memória aguçada de pessoas idosas que sobreviveram a um trágico acontecimento de nossa história. Além de dar a palavra à aqueles que por muitas são ignorados por nossa sociedade, os idosos, o documentário recompõe a partir de depoimentos a tragédia e o sofrimento da Guerra de Canudos. Recupera também o sonho de pessoas que queriam apenas viver de forma digna nos sertões áridos e controlados por poucos, mas poderosos e gananciosos. Ao ouvir os sobreviventes do que foi um verdadeiro massacre o filme contribui para uma reflexão crítica a cerca dos dilemas atuais de nosso país, pois a trágica história de Canudos parece se repetir no cotidiano violento de nossas favelas sem que disso nos apercebamos." - Texto de premiação da 10ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico.

Ficha técnica

Produção: 2004-2005
Formato original: longa-metragem 35 mm
Duração: 72 minutos
Diretor: Paulo Fontenelle
Produtora: Cleyde Afonso
Fotografia: Marcio Bredariol e Cleisson Vidal
Montagem: Paulo Fontenelle
Trilha sonora:  Marcos Souza

Formato: DVD. Preço: R$35,00 mais despesas de frete via PAC ou Sedex.

Cód SOBFI200402